terça-feira, 13 de agosto de 2013

Chamado do Vazio

As batidas do meu coração ecoavam em explosões ensurdecedoras. O som se espalhava pelas monstruosas paredes pedregosas e se perdia no nada de névoa e rajadas de vento que se descortinava após a beirada do precipício, enquanto eu me aproximava lentamente. O meu fluxo sanguíneo corria tão rápido e selvagem que em alguns momentos me ludibriava e eu podia jurar que havia um rio lá embaixo, as suas águas caudalosas e indomáveis beijando as brumas pegajosas que se grudavam em cada superfície do penhasco.
Talvez houvesse mesmo um rio lá, além da parede de neblina. Talvez eu encontrasse meu túmulo entre correntes diáfanas de água, meu corpo sem vida arrastado eternamente pelo curso. Talvez eu encalhasse em algum obstáculo e ficasse eternamente preso naquele trecho, sob gigantescos palácios de névoa, com a borda do precipício a me vigiar como um animal de guarda feroz. Talvez meu corpo seguisse pelo rio até o oceano, onde poderia ser admitido nos salões de algum deus pagão do mar, vivendo eternamente numa corte de animais marinhos e navios naufragados. Talvez.
A única certeza era o vazio que se abria diante de mim. Eu fiquei um longo tempo lá, esperando, em pé a poucos metros da queda que parecia infinita. Dizem que o ser humano só está realmente pronto pra partir quando aprende o suficiente da sua passagem na terra. Ali, entre grilhões de névoa e pináculos de rocha, eu aprendi mais do que em toda minha vida anterior. Aos poucos eu percebi que aquele silêncio de catacumba carregava uma coleção de sons ensurdecedores dentro de si. O vento cortante passou a explodir em uma centena de diferentes acordes, contando em sua música histórias que eu ouvia desde meu nascimento, mas que nunca tinha realmente parado para notar. A névoa e a rocha do penhasco se tocavam da forma mais sutil e íntima que eu já vira na vida, e ao mesmo tempo de uma maneira carregada de tristeza, como se fossem dois amantes fadados a viverem eternamente abraçados, porém sem possibilidade de consumarem seu amor, por serem tão diferentes. A grama rala que crescia sob meus pés, os raios de sol esporádicos que furavam a barreira de pedra e bruma, tudo ali me contava uma história diferente, que abria meus olhos para um mundo totalmente novo.
E por trás de tudo aquilo, eu ouvi o chamado do vazio. Milhões de vozes berrando no silêncio. Eu sabia que aquele vazio seria o último descanso para minha alma quebrada. Eu era um indigente, um número, uma estatística. Caminhara até aquele penhasco movido pelo desespero. Um náufrago no mar do sofrimento. Um rosto na multidão. Fui até lá procurando a morte nas profundezas do vazio. Em vez disso, encontrei vida.
Aprendi o suficiente para abandonar a minha existência. E no sentido de morrer, aprendi o de viver.
Abri meus braços, respirei o ar frio e limpo. A névoa beijou meu rosto como uma mãe zelosa. Deixei meus pés atravessarem os poucos metros que faltavam. Senti a borda do precipício com eles. Atirei-me em direção ao nada e fui recebido pelos seus braços amorosos. Ergui meus olhos em direção ao céu que girava e senti finalmente o que era pertencer ao meio.

E então, eu caí em direção à eternidade.

domingo, 9 de junho de 2013

Dia

Era dia.
O amanhecer sempre terminava por alcançar aquelas ruas irregulares e esburacadas. As nuvens sempre pareciam meio sujas e o ar meio estagnado, mas não naquelas primeiras horas de dia claro, quando o céu ficava indeciso entre um negro azulado e uma cor que feria os olhos de tão brilhante. O ar de repente adquiria uma pureza bucólica, os jornais com que os mendigos se cobriam pareciam muito mais quentes e aconchegantes, a verdade parecia muito mais simples e entendível. Aos poucos a luz do sol avançava, no começo com a timidez típica de um jovem que despe a amada pela primeira vez, e de repente, rompia a noite com a segurança dos amantes experientes. Irrompia violenta, jogando uma nova clareza sobre o desespero que crescera durante a noite, cegando alguns pobres diabos e iluminando novos caminhos. As estrelas esvaneciam e os bêbados caminhavam pelas calçadas procurando os seus lares. As primeiras donas de casa à saírem da cama abriam as suas janelas uma por uma, deixando que a manhã tomasse conta dos cômodos. As prostitutas cruzavam com os trabalhadores diurnos, conforme elas voltavam para casa depois de uma longa e dura noite e eles saíam para suas jornadas. Na costa, os faróis apagavam suas lanternas.
Era dia.
Era dia por muitas horas, mas nada era tão Dia, com dê maiúsculo mesmo, do que aqueles primeiros minutos, em que o sol lutava com a lua pelo céu. As poucas almas que se encontravam habitando as ruas podiam enxergar como aquele momento era diferente. Alguns mendigos acordavam com a mudança de ares, os bêbados tropeçavam menos e as prostitutas sorriam através de máscaras de cansaço. Os operadores dos faróis sorriam aliviados com o fim de um longo ciclo, enquanto os presidiários assistiam esperançosos os primeiros raios de luz perfurarem a escuridão podre das celas em que estavam jogados. A própria noite parecia suspirar de deleite, conforme recolhia suas sombras e se despedia das estrelas, que sumiam no céu enfumaçado. Os escritores contemplavam o trabalho da noite anterior sob a perspectiva do sol, e logo depois se recolhiam para descansar depois de horas de esforço árduo. A própria morte parecia se conter, incapaz de tomar almas durante aquele momento único, em que o céu ficava indeciso entre a luz e a treva.

Era uma festa silenciosa. Finalmente, era Dia. Assim mesmo, com dê maiúsculo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Demônio


Marília.
Ela podia ouvir seu nome ocasionalmente, como um chamado distante ecoando em meio à névoa letárgica em que se encontrava. Seu corpo, condicionado a agir de forma mecânica, reagia, balançando a cabeça, acenando, aceitando abraços, consolos, relatos de superação, flores horrendas. No meio daquele caos, o seu nome era uma das poucas coisas capaz de despertá-la dos seus próprios pensamentos sombrios. “Marília”, alguém dizia, com o tom de voz próprio de quem se dirigia a uma pessoa meio emperrada entre a vontade de viver e a desistência de tudo. Seu nome flutuava naquela atmosfera de condolências, de roupas escuras, de coroas de flores e de cabeças anuindo. “Marília” era o nome para onde tudo convergia.
“É a esposa”. “É a amante”. “É a Marília”. A Marília. Era isso que ela era, no fim das contas, e não sabia se tinha preparo para tudo que significava ser “A Marília”. A mulher do morto. A musa inspiradora do dramaturgo. A que lavava as cuecas dele. A que encontrou o corpo dele jogado na calçada. A que não estava em casa na hora que ele caiu. A que estava carregando o peso do mundo nas costas. Era ela. A Marília.
“A gente começa a morrer por dentro, primeiro a alma se quebra, e depois o resto”. Ele escrevera isso, anos atrás, e ela encenara, dera vida àquelas palavras diante de uma plateia vidrada. Ainda podia sentir a energia daquelas pessoas emanando em sua direção. Pareceu fazer sentido na época, mas agora ele estava naquela caixa horrenda de madeira e ela não sabia se ele começara a se desintegrar de dentro pra fora – embora ela estivesse em pleno caminho da desintegração. Não queria começar a procurar sinais, não queria revirar mentalmente os textos recentes dele e procurar indícios, não queria imaginar o que se passara no apartamento antes dele cair, não queria que a morte dele a arrastasse junto, e antes que desse por si, já estava fazendo isso.
Demônio.
Enquanto o salão se esvaziava, ela não podia pensar em outra coisa senão naquilo. Demônio, a última peça, a que ele nunca veria ser encenada. Como de praxe, um monólogo para se encenado por ela. Nunca se esqueceria do dia em que ele lhe apresentara. Cada palavra do manuscrito parecia dragá-la, envolvendo-a, fazendo com que ela submergisse no universo que ele criara. De longe, a mais sombria e a mais derrotista de suas peças. Ali, no salão de velório, enquanto as pessoas iam embora e ela ficava sozinha conforme a noite avançava, Marília revisava o texto que sabia de cor, e, em meio às coroas de flores, podia ver em cada linha rachaduras na alma do homem que amara. Só podia concluir que estava tão quebrada quanto ele.
E aos poucos, tudo começou a desmoronar.
“Demônio” era um monólogo sobre uma mulher que era abandonada sozinha no funeral do marido. Destroçada pela dor, enlouquecida pelo sofrimento, oscilava entre vários padrões de comportamento, flutuando entre as memórias boas e ruins que tinha da sua vida conjugal. Corroída pela dúvida sobre a natureza da morte do seu esposo, inconvenientemente semelhante a um suicídio, ela própria contemplava a possibilidade de tirar a sua vida.
E ali, sozinha, no meio da madrugada, entre pensamentos de morte, coroas de flores e memórias que se dobravam sobre si mesmas, tendo como sua única plateia aquela caixa de madeira que encerrava os restos mortais dele, o texto lhe veio com brutalidade. “Demônio” estava costurado na sua carne.
A última encenação deles fora a mais verdadeira.

sábado, 18 de maio de 2013

Silêncio


Através das paredes finas dos cortiços, grudado aos degraus de mármore das igrejas colossais, por entre as saias das moças que passeiam diariamente pelo largo, flutuando nas poças de água suja, havia o silêncio. Impregnado nas paredes podres das habitações miseráveis, nos corpos lançados nas valas de indigentes, nos pescoços perfumados das senhoras, nas coxas raladas das prostitutas, na madeira dos cortiços, nos portões de ferro batido das mansões, havia o silêncio.
Construída com paixões e ambições, sobre uma fundação de sangue e segredos, decorada com mentiras e desejos, havia a cidade. Desde as habitações miseráveis que se amontoavam em torno do cais, passando pelos palácios de paredes e almas decadentes, até as mansões modernas, malditas e luxuosas, o silêncio se alastrava, como as colunas que sustentavam aquela catedral monstruosa e ricamente decorada de mistérios. Todas as almas perdidas daquela cidade se movimentando ao som do balé do Silêncio, que talvez deva ser escrito com S maiúsculo, já que parecia ser o único deus a vigiar a sorte daquele lugar. Nos Seus braços recebia as almas condenadas, as velhas de ossos gelados, as jovens desiludidas, os bêbados, os banqueiros, as putas, os padres, os livres (embora ninguém ali estivesse de fato livre), os desonrados, os barões, as senhoras respeitáveis, seus amantes de rostos imberbes. No Silêncio tudo tinha o seu princípio e o seu fim.
Caminhando por aquele local perdido, que parecia se encontrar em cada esquina e em cada estátua depredada, poucos podiam ouvi-Lo. Cantando sua música inaudível, sua orquestra invisível, ele permanecia envolvendo a tudo, como um manto sufocante e protetor. Como a névoa que se insinuava pela manhã, tocando a tudo com seus dedos pegajosos, e como a escuridão que encerrava o terror e as maravilhas durante as noites, ou como o tempo, que encerrava em si mesmo e nos prédios imemoriais segredos de eras, o Silêncio catalisava cada átomo, envolvia cada corpo, abençoava cada ação, calculada ou desesperada.
Havia o amor, havia a morte, havia a decadência, havia a vida, havia a podridão. E havia o Silêncio.
O Silêncio das coisas que eram e não são mais, das que ainda deveriam ser e não são e das que são e não deveriam, de todas as coisas amaldiçoadas a serem algo algum dia, o Silêncio de todas as coisas que poderiam ser, mas não serão nunca.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Nossa Janela


Queria encontrar os comandos certos para poder abrir uma fenda no meu coração e deixar que as palavras jorrem diretamente de lá, ensopadas de sangue e verdade. Queria descobrir a técnica exata para rasgar os meus olhos de forma que pudesse ficar sentenciado a forma ideal de escuridão: aquela que permite ver com mais clareza. Queria encontrar a delicada costura que prende o oxigênio aos meus pulmões, e após soltá-la, deixar que minha alma escape junto com o ar que me abandona, deixando meu corpo falho de humano para ser decomposto sozinho.
Mais do que isso, eu queria te alcançar do outro lado da cama. Os centímetros de colchão parecem mais com milhas de um longo e tortuoso caminho. As pontas dos meus dedos roçam o teu corpo adormecido, e então, ensaiam uma carícia, puxando delicadamente a alça da tua camisola de tecido diáfano, que se funde com a luz sutil que penetra pela janela. Nossa janela. Não sei quase nada sobre o teu dia, não sei com quem você almoçou, não foi compartilhada comigo a piada que você ouviu mais cedo no trabalho. Talvez não saiba mais quem você é. Mas sei que aquela janela por onde entra a luz é a nossa janela. Nossa. Sei mais coisas, e que eu sei é ainda pior: sei que faz muito tempo desde a última vez que fizemos algo pela primeira vez. Faz muito tempo desde a última vez que cruzamos a distância daquela cama. Da nossa cama. E eu sei coisas ainda piores sobre nós dois, mas ensinei a mim mesmo a maneira exata de ignorá-las.
Eu sei, também, a ciência exata da tua respiração. Eu sei o compasso, a frequência e o arquear dos teus ombros. Aprendi anos atrás como os movimentos ficam mais lentos quando você está adormecida. Posso vê-la dormindo mesmo quando estou de olhos fechados. A respiração vigorosa e veloz, e então, quando você finalmente se entrega ao sono, os movimentos longos, lentos e fluidos. Antigamente, quando a maior distância entre nós ainda era a física, costumávamos falar sobre a maneira como você respirava ainda mais lentamente que a maioria das pessoas enquanto dormia. Eu chegava até mesmo ao ponto de te acordar, preocupado, e você ria disso, e ria, e ria, e ríamos, e era como se os nossos corpos estivessem colados, como se não houvesse maneira de nos manterem longe um do outro.
Naquela noite, em que eu tentei puxar a alça da sua camisola, você não respondeu aos meus movimentos porque estava dormindo. Sua respiração, porém, estava mais veloz do que nunca.
Eu quero abrir uma fenda no meu coração e deixar que jorrem as palavras certas para te trazer de volta para perto. Eu quero rasgar os meus olhos para poder te ver como você é de verdade, cercada pela escuridão. Eu quero que a minha alma se misture ao ar que eu expiro para que você possa me respirar. Então, eu posso oxigenar teu sangue e correr por dentro do teu corpo, mais perto de você do que nunca estive antes.