terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Nada

nada
desagua
no tudo (que é nada)

dores
desaguam
na poesia

(se cobre de flores)

eu
desaguo
na anestesia

(cobre todas as cores)

vida
desagua
no nada (que é tudo)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Apartamento

     O cheiro no apartamento era uma mistura de papel velho, café e cigarro. Aqueles odores pertenciam à habitação miserável da mesma maneira que as paredes sujas, as lâmpadas nuas e a fiação desencapada. Espalhada pelos cômodos mal iluminados, havia uma coleção irregular de memórias. Elas pertenciam àquele lugar tanto quando a mobília ou o cheiro acre de loucura que se desprendia do assoalho. Entre os livros anciões, cinzeiros lascados e móveis velhos, o passado queimava como a ponta dos cigarros que eram abandonados nos parapeitos das janelas do apartamento. Estas, bloqueadas por anos de sujeira, não me permitiam olhar para o mundo que se passava lá fora, me obrigando a olhar sempre para mim mesmo.
     Eu sabia que morreria ali. Na primeira vez em que cruzei a porta estreita, carregando uma bagagem de livros e desilusões, eu sabia que ali seria o meu mausoléu. O meu descanso final. Em pouco tempo perdi a noção dos dias, das semanas, dos meses. Guerras foram travadas do lado de fora da minha porta. Revoluções aconteceram às vistas das minhas janelas. Reis foram coroados e destituídos na minha calçada.
     A loucura começou se instalando aos poucos. Não o tipo de insanidade violenta, mas aquela que te prende a um pêndulo invisível e te obriga a oscilar entre o que acontece e o que já aconteceu, furando a barreira do tempo de maneira desinteressada. Depois de algum tempo, no passar diário pelo curto corredor entre o quarto e a sala, eu via a mim mesmo em vários momentos da minha vida. Pasmo, assistia às cenas que já conhecia de cor. O reflexo no espelho do banheiro não mais mostrava um velho de olhos cansados, a caminho do descanso definitivo, e sim um jovem sedento pelo que a vida tinha a oferecer. As páginas dos livros, com o passar dos meses, narravam os acontecimentos que tinham me guiado até aquele apartamento miserável, onde eu fora, tempos atrás, esperar a morte. Incessantemente eu as relia, mergulhava nos meus saudosos amores, sofrimentos e erros.
     Afundado na poltrona da sala, numa pose digna de rei, eu me afogava nas águas em que um dia havia mergulhado.
     Um dia acordei e não encontrei mais memórias ao meu redor. Estava tão são quanto um homem velho e inteligente pode ser. Levantei da cama, me desviei dos lençóis amarelados e olhei em volta, olhei para aquela tumba miserável, e a vi como ela realmente era, despida do manto do passado. O espelho rachado do banheiro mostrava apenas a máscara decrépita que eu levava sobre o rosto. O odor do apartamento não era outro senão a da podridão da minha alma, e não o cheiro da glória do passado. A sala parecia anormalmente vazia, despida das cenas que diariamente costumavam se desenrolar em seu espaço, e que eu assistia com um prazer infantil. 
      Parado no vestíbulo, lancei um último olhar para minha prisão. Fedia a morte. Parecia com a morte. Era, enfim, a morte.
      Não olhei para trás. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Chamado do Vazio

As batidas do meu coração ecoavam em explosões ensurdecedoras. O som se espalhava pelas monstruosas paredes pedregosas e se perdia no nada de névoa e rajadas de vento que se descortinava após a beirada do precipício, enquanto eu me aproximava lentamente. O meu fluxo sanguíneo corria tão rápido e selvagem que em alguns momentos me ludibriava e eu podia jurar que havia um rio lá embaixo, as suas águas caudalosas e indomáveis beijando as brumas pegajosas que se grudavam em cada superfície do penhasco.
Talvez houvesse mesmo um rio lá, além da parede de neblina. Talvez eu encontrasse meu túmulo entre correntes diáfanas de água, meu corpo sem vida arrastado eternamente pelo curso. Talvez eu encalhasse em algum obstáculo e ficasse eternamente preso naquele trecho, sob gigantescos palácios de névoa, com a borda do precipício a me vigiar como um animal de guarda feroz. Talvez meu corpo seguisse pelo rio até o oceano, onde poderia ser admitido nos salões de algum deus pagão do mar, vivendo eternamente numa corte de animais marinhos e navios naufragados. Talvez.
A única certeza era o vazio que se abria diante de mim. Eu fiquei um longo tempo lá, esperando, em pé a poucos metros da queda que parecia infinita. Dizem que o ser humano só está realmente pronto pra partir quando aprende o suficiente da sua passagem na terra. Ali, entre grilhões de névoa e pináculos de rocha, eu aprendi mais do que em toda minha vida anterior. Aos poucos eu percebi que aquele silêncio de catacumba carregava uma coleção de sons ensurdecedores dentro de si. O vento cortante passou a explodir em uma centena de diferentes acordes, contando em sua música histórias que eu ouvia desde meu nascimento, mas que nunca tinha realmente parado para notar. A névoa e a rocha do penhasco se tocavam da forma mais sutil e íntima que eu já vira na vida, e ao mesmo tempo de uma maneira carregada de tristeza, como se fossem dois amantes fadados a viverem eternamente abraçados, porém sem possibilidade de consumarem seu amor, por serem tão diferentes. A grama rala que crescia sob meus pés, os raios de sol esporádicos que furavam a barreira de pedra e bruma, tudo ali me contava uma história diferente, que abria meus olhos para um mundo totalmente novo.
E por trás de tudo aquilo, eu ouvi o chamado do vazio. Milhões de vozes berrando no silêncio. Eu sabia que aquele vazio seria o último descanso para minha alma quebrada. Eu era um indigente, um número, uma estatística. Caminhara até aquele penhasco movido pelo desespero. Um náufrago no mar do sofrimento. Um rosto na multidão. Fui até lá procurando a morte nas profundezas do vazio. Em vez disso, encontrei vida.
Aprendi o suficiente para abandonar a minha existência. E no sentido de morrer, aprendi o de viver.
Abri meus braços, respirei o ar frio e limpo. A névoa beijou meu rosto como uma mãe zelosa. Deixei meus pés atravessarem os poucos metros que faltavam. Senti a borda do precipício com eles. Atirei-me em direção ao nada e fui recebido pelos seus braços amorosos. Ergui meus olhos em direção ao céu que girava e senti finalmente o que era pertencer ao meio.

E então, eu caí em direção à eternidade.

domingo, 9 de junho de 2013

Dia

Era dia.
O amanhecer sempre terminava por alcançar aquelas ruas irregulares e esburacadas. As nuvens sempre pareciam meio sujas e o ar meio estagnado, mas não naquelas primeiras horas de dia claro, quando o céu ficava indeciso entre um negro azulado e uma cor que feria os olhos de tão brilhante. O ar de repente adquiria uma pureza bucólica, os jornais com que os mendigos se cobriam pareciam muito mais quentes e aconchegantes, a verdade parecia muito mais simples e entendível. Aos poucos a luz do sol avançava, no começo com a timidez típica de um jovem que despe a amada pela primeira vez, e de repente, rompia a noite com a segurança dos amantes experientes. Irrompia violenta, jogando uma nova clareza sobre o desespero que crescera durante a noite, cegando alguns pobres diabos e iluminando novos caminhos. As estrelas esvaneciam e os bêbados caminhavam pelas calçadas procurando os seus lares. As primeiras donas de casa à saírem da cama abriam as suas janelas uma por uma, deixando que a manhã tomasse conta dos cômodos. As prostitutas cruzavam com os trabalhadores diurnos, conforme elas voltavam para casa depois de uma longa e dura noite e eles saíam para suas jornadas. Na costa, os faróis apagavam suas lanternas.
Era dia.
Era dia por muitas horas, mas nada era tão Dia, com dê maiúsculo mesmo, do que aqueles primeiros minutos, em que o sol lutava com a lua pelo céu. As poucas almas que se encontravam habitando as ruas podiam enxergar como aquele momento era diferente. Alguns mendigos acordavam com a mudança de ares, os bêbados tropeçavam menos e as prostitutas sorriam através de máscaras de cansaço. Os operadores dos faróis sorriam aliviados com o fim de um longo ciclo, enquanto os presidiários assistiam esperançosos os primeiros raios de luz perfurarem a escuridão podre das celas em que estavam jogados. A própria noite parecia suspirar de deleite, conforme recolhia suas sombras e se despedia das estrelas, que sumiam no céu enfumaçado. Os escritores contemplavam o trabalho da noite anterior sob a perspectiva do sol, e logo depois se recolhiam para descansar depois de horas de esforço árduo. A própria morte parecia se conter, incapaz de tomar almas durante aquele momento único, em que o céu ficava indeciso entre a luz e a treva.

Era uma festa silenciosa. Finalmente, era Dia. Assim mesmo, com dê maiúsculo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Demônio


Marília.
Ela podia ouvir seu nome ocasionalmente, como um chamado distante ecoando em meio à névoa letárgica em que se encontrava. Seu corpo, condicionado a agir de forma mecânica, reagia, balançando a cabeça, acenando, aceitando abraços, consolos, relatos de superação, flores horrendas. No meio daquele caos, o seu nome era uma das poucas coisas capaz de despertá-la dos seus próprios pensamentos sombrios. “Marília”, alguém dizia, com o tom de voz próprio de quem se dirigia a uma pessoa meio emperrada entre a vontade de viver e a desistência de tudo. Seu nome flutuava naquela atmosfera de condolências, de roupas escuras, de coroas de flores e de cabeças anuindo. “Marília” era o nome para onde tudo convergia.
“É a esposa”. “É a amante”. “É a Marília”. A Marília. Era isso que ela era, no fim das contas, e não sabia se tinha preparo para tudo que significava ser “A Marília”. A mulher do morto. A musa inspiradora do dramaturgo. A que lavava as cuecas dele. A que encontrou o corpo dele jogado na calçada. A que não estava em casa na hora que ele caiu. A que estava carregando o peso do mundo nas costas. Era ela. A Marília.
“A gente começa a morrer por dentro, primeiro a alma se quebra, e depois o resto”. Ele escrevera isso, anos atrás, e ela encenara, dera vida àquelas palavras diante de uma plateia vidrada. Ainda podia sentir a energia daquelas pessoas emanando em sua direção. Pareceu fazer sentido na época, mas agora ele estava naquela caixa horrenda de madeira e ela não sabia se ele começara a se desintegrar de dentro pra fora – embora ela estivesse em pleno caminho da desintegração. Não queria começar a procurar sinais, não queria revirar mentalmente os textos recentes dele e procurar indícios, não queria imaginar o que se passara no apartamento antes dele cair, não queria que a morte dele a arrastasse junto, e antes que desse por si, já estava fazendo isso.
Demônio.
Enquanto o salão se esvaziava, ela não podia pensar em outra coisa senão naquilo. Demônio, a última peça, a que ele nunca veria ser encenada. Como de praxe, um monólogo para se encenado por ela. Nunca se esqueceria do dia em que ele lhe apresentara. Cada palavra do manuscrito parecia dragá-la, envolvendo-a, fazendo com que ela submergisse no universo que ele criara. De longe, a mais sombria e a mais derrotista de suas peças. Ali, no salão de velório, enquanto as pessoas iam embora e ela ficava sozinha conforme a noite avançava, Marília revisava o texto que sabia de cor, e, em meio às coroas de flores, podia ver em cada linha rachaduras na alma do homem que amara. Só podia concluir que estava tão quebrada quanto ele.
E aos poucos, tudo começou a desmoronar.
“Demônio” era um monólogo sobre uma mulher que era abandonada sozinha no funeral do marido. Destroçada pela dor, enlouquecida pelo sofrimento, oscilava entre vários padrões de comportamento, flutuando entre as memórias boas e ruins que tinha da sua vida conjugal. Corroída pela dúvida sobre a natureza da morte do seu esposo, inconvenientemente semelhante a um suicídio, ela própria contemplava a possibilidade de tirar a sua vida.
E ali, sozinha, no meio da madrugada, entre pensamentos de morte, coroas de flores e memórias que se dobravam sobre si mesmas, tendo como sua única plateia aquela caixa de madeira que encerrava os restos mortais dele, o texto lhe veio com brutalidade. “Demônio” estava costurado na sua carne.
A última encenação deles fora a mais verdadeira.

sábado, 18 de maio de 2013

Silêncio


Através das paredes finas dos cortiços, grudado aos degraus de mármore das igrejas colossais, por entre as saias das moças que passeiam diariamente pelo largo, flutuando nas poças de água suja, havia o silêncio. Impregnado nas paredes podres das habitações miseráveis, nos corpos lançados nas valas de indigentes, nos pescoços perfumados das senhoras, nas coxas raladas das prostitutas, na madeira dos cortiços, nos portões de ferro batido das mansões, havia o silêncio.
Construída com paixões e ambições, sobre uma fundação de sangue e segredos, decorada com mentiras e desejos, havia a cidade. Desde as habitações miseráveis que se amontoavam em torno do cais, passando pelos palácios de paredes e almas decadentes, até as mansões modernas, malditas e luxuosas, o silêncio se alastrava, como as colunas que sustentavam aquela catedral monstruosa e ricamente decorada de mistérios. Todas as almas perdidas daquela cidade se movimentando ao som do balé do Silêncio, que talvez deva ser escrito com S maiúsculo, já que parecia ser o único deus a vigiar a sorte daquele lugar. Nos Seus braços recebia as almas condenadas, as velhas de ossos gelados, as jovens desiludidas, os bêbados, os banqueiros, as putas, os padres, os livres (embora ninguém ali estivesse de fato livre), os desonrados, os barões, as senhoras respeitáveis, seus amantes de rostos imberbes. No Silêncio tudo tinha o seu princípio e o seu fim.
Caminhando por aquele local perdido, que parecia se encontrar em cada esquina e em cada estátua depredada, poucos podiam ouvi-Lo. Cantando sua música inaudível, sua orquestra invisível, ele permanecia envolvendo a tudo, como um manto sufocante e protetor. Como a névoa que se insinuava pela manhã, tocando a tudo com seus dedos pegajosos, e como a escuridão que encerrava o terror e as maravilhas durante as noites, ou como o tempo, que encerrava em si mesmo e nos prédios imemoriais segredos de eras, o Silêncio catalisava cada átomo, envolvia cada corpo, abençoava cada ação, calculada ou desesperada.
Havia o amor, havia a morte, havia a decadência, havia a vida, havia a podridão. E havia o Silêncio.
O Silêncio das coisas que eram e não são mais, das que ainda deveriam ser e não são e das que são e não deveriam, de todas as coisas amaldiçoadas a serem algo algum dia, o Silêncio de todas as coisas que poderiam ser, mas não serão nunca.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Nossa Janela


Queria encontrar os comandos certos para poder abrir uma fenda no meu coração e deixar que as palavras jorrem diretamente de lá, ensopadas de sangue e verdade. Queria descobrir a técnica exata para rasgar os meus olhos de forma que pudesse ficar sentenciado a forma ideal de escuridão: aquela que permite ver com mais clareza. Queria encontrar a delicada costura que prende o oxigênio aos meus pulmões, e após soltá-la, deixar que minha alma escape junto com o ar que me abandona, deixando meu corpo falho de humano para ser decomposto sozinho.
Mais do que isso, eu queria te alcançar do outro lado da cama. Os centímetros de colchão parecem mais com milhas de um longo e tortuoso caminho. As pontas dos meus dedos roçam o teu corpo adormecido, e então, ensaiam uma carícia, puxando delicadamente a alça da tua camisola de tecido diáfano, que se funde com a luz sutil que penetra pela janela. Nossa janela. Não sei quase nada sobre o teu dia, não sei com quem você almoçou, não foi compartilhada comigo a piada que você ouviu mais cedo no trabalho. Talvez não saiba mais quem você é. Mas sei que aquela janela por onde entra a luz é a nossa janela. Nossa. Sei mais coisas, e que eu sei é ainda pior: sei que faz muito tempo desde a última vez que fizemos algo pela primeira vez. Faz muito tempo desde a última vez que cruzamos a distância daquela cama. Da nossa cama. E eu sei coisas ainda piores sobre nós dois, mas ensinei a mim mesmo a maneira exata de ignorá-las.
Eu sei, também, a ciência exata da tua respiração. Eu sei o compasso, a frequência e o arquear dos teus ombros. Aprendi anos atrás como os movimentos ficam mais lentos quando você está adormecida. Posso vê-la dormindo mesmo quando estou de olhos fechados. A respiração vigorosa e veloz, e então, quando você finalmente se entrega ao sono, os movimentos longos, lentos e fluidos. Antigamente, quando a maior distância entre nós ainda era a física, costumávamos falar sobre a maneira como você respirava ainda mais lentamente que a maioria das pessoas enquanto dormia. Eu chegava até mesmo ao ponto de te acordar, preocupado, e você ria disso, e ria, e ria, e ríamos, e era como se os nossos corpos estivessem colados, como se não houvesse maneira de nos manterem longe um do outro.
Naquela noite, em que eu tentei puxar a alça da sua camisola, você não respondeu aos meus movimentos porque estava dormindo. Sua respiração, porém, estava mais veloz do que nunca.
Eu quero abrir uma fenda no meu coração e deixar que jorrem as palavras certas para te trazer de volta para perto. Eu quero rasgar os meus olhos para poder te ver como você é de verdade, cercada pela escuridão. Eu quero que a minha alma se misture ao ar que eu expiro para que você possa me respirar. Então, eu posso oxigenar teu sangue e correr por dentro do teu corpo, mais perto de você do que nunca estive antes.

domingo, 28 de abril de 2013

Maria, Helena, Clarice ou Olga


Já estava acordada quando o sol dava as caras. Sacudia o corpo esbelto, as curvas tentadoras, os longos cabelos escuros cascateando em volta de si, como uma auréola selvagem, quase como uma deusa pagã. Arrumava a casa de par a par, batia a poeira, fazia o café. Antes que o cheiro dos grãos se dissipasse, beijava o rosto da criança ainda adormecida e descia pela rua esburacada.
Ainda era cedo quando descia pelo seu caminho diário, mas já precisava sustentar os olhares de frieza e reprovação da vizinhança, alternados por um ou outro olhar de desejo escancarado pelas suas formas. Não se importava. Havia aprendido a não se rebaixar. Caminhava de cabeça erguida, desviando dos buracos no calçamento, os cabelos presos, porém de uma forma que ainda podiam se derramar feito cascata pela sua face. Vadeava o rio para chegar ao trabalho, a barra do vestido várias vezes dobrada, as coxas morenas e bem torneadas imersas na água.
Ela podia se chamar Maria, Helena, Clarice ou Olga. Podia ser Júlia, Roberta, Mariana, ou Berenice. Sua identidade era a criança que precisava sustentar sozinha e que ainda estava adormecida quando saia de manhã para ganhar a vida. Seu governo era o governo do pacote de pãezinhos que trazia para casa no fim da jornada diária, erguido por sobre sua cabeça enquanto atravessava o rio de volta ao lar. Sua religião era a religião do sorriso da sua filha, quando voltava depois de um dia extenuante e a encontrava esperando, pronta para relatar as descobertas recentes que fizera. O seu partido era o partido do salário no começo do mês, que com alguma sorte e uma privação moderada, duraria o suficiente. Não tinha sonhos, não no plural. Tinha um sonho, o sonho: sonho de sobreviver, mesmo que fosse ali, naquela vizinhança esquecida por qualquer tipo de deus que vigiasse a sua sorte.
A pequena gostava de ouvir suas histórias. Antes – da aceitação da frieza do mundo real, da gravidez, de encarar a realidade que transpirava fracasso e derrotismo – sonhara em ser escritora. Gostava de imaginar que na falta de uma narrativa, a filha era o seu maior projeto. Ela seria a sua estória. Gostava de ver a criança – a sua criança – como uma flor em meio ao apocalipse daquele lugar, daquela realidade. Estranhamente, sua filha, que era tão frágil, era a rocha mais firme em que podia se apoiar.
Dia após dia, ela escrevia. Não em papel. Não com tinta. Escrevia com atos. Escrevia com o olhar de desafio para os vizinhos. Escrevia com a sua única saia dobrada para que pudesse atravessar o rio e ir trabalhar. Escrevia com o amor que dava a sua filha, e também com o amor que recebia dela, e que era aquilo que a sustentava em pé no fim do dia. Aceitara que nunca teria seu nome impresso na capa de um livro. Aceitara que ela não contaria nunca uma estória.
Porque ela era a própria estória. Ela estava fazendo a sua história.

sábado, 13 de abril de 2013

Zugzwang


Zugzwang. Seu mantra. Sua filosofia de vida. Eu gostava da maneira como soava, mesmo antes de você me explicar o significado. Zugzwang. Parecia profundo, como se o som ecoasse na minha cabeça, mesmo muito tempo depois da palavra ser dita. Como se ela estivesse acompanhada de ecos infinitos. Como se as letras estivessem gravadas a fogo na minha mente. Z u g z w a n g.
No jogo de xadrez, zugzwang é uma situação em que o jogador não possui movimentos favoráveis. Nada que ele faça pode ser revertido em um benefício. É quando você percebe que está tudo perdido, você me disse, com o tom próprio de quem conta algo extremamente importante. Eu me lembro de você naquele momento. As barreiras que você construíra ao seu redor caindo, uma a uma. Lembro-me de cada minúsculo e desprezível detalhe daquela tarde que passamos juntos na cama. A luz entrava pela janela e fazia um carinho delicado sobre nossos corpos. Eu via um tremor nos seus olhos enquanto você me explicava. Você sussurrou a palavra, lançando-a no ar, me deixando no suspense, e só então começou a me ensinar sobre ela. Eu via como você estava ansiosa para que eu visse a dimensão do raciocínio. As palavras escapavam pela sua boca, que se contorcia em um sorriso, meio triste, meio ansioso. No fundo, cada gesto implorava para que eu entendesse. Você deixara as suas barreiras caírem esperava que eu compreendesse. E eu entendi. Eu entendi o que era zugzwang.
Nesse momento, você decide se sai do jogo ou se continua, mesmo sabendo que vai perder. Essa decisão faz toda a diferença. Foram essas as suas palavras exatas. Naquela hora eu não entendi bem. Esforçava-me para montar aquele quebra-cabeça, pare elucidar o mistério que você me propusera, mas a palavra ainda explodia pelos meus ouvidos, ensurdecedora, tirando minha concentração. Zugzwang. Zugzwang. Zugzwang. Zugzwang. Zugzwang. ZUGZWANG. Eu me lembro de que você me abraçou, e então, eu parei de pensar. Entreguei-me ao seu abraço, ao seu cheiro, ao compasso ritmado da sua respiração. Fizemos amor de uma maneira mais entregue um ao outro do que eu achei ser possível, e no momento em que nós dois estávamos prestes a adormecer, cobertos pelo fino cobertor de luz que penetrava pela janela, eu compreendi.
Agora já não importa mais.
É quando você percebe que está tudo perdido. Eu precisei de muitos anos para determinar o dia em que eu perdi, porém até hoje não fui capaz. Mas eu perdi. Agora já fazem muitos anos que você foi embora, mas eu entendi. Entendi a filosofia da perda. Como todos nós perdermos. E perderemos sempre. A vida é um jogo de derrotas. A diferença é que alguns de nós percebemos isso.
Nesse momento, você decide se sai do jogo ou se continua, mesmo sabendo que vai perder. Essa decisão faz toda a diferença.
Zugzwang. É quando você percebe que está tudo perdido. Alguns percebem isso. E vão até o fim. Continuam a jogar. Movimentam-se apenas para continuarem na partida. E isso faz toda a diferença. E ninguém pode perder fazendo a diferença.
Eu espero, de verdade, que você saiba que eu entendi. Espero que lembre de mim como aquele que soube ir até o fim.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Cleópatra


Depois de muito ponderar, Cleópatra decidiu que se mataria com um simples furador de gelo.
A peça era simples, extremamente funcional, trabalhada em metal e com um simples cabo de madeira. A sua homônima famosa usara uma cobra naja para cometer o mesmo ato, mas não havia da parte dela nenhum desejo de imitação. Sentada nua sobre o sofá da sala, no apartamento em que vivia sozinha, ela apertava o cabo do furador entre as coxas, enquanto pensava no ato que estava prestes a cometer, embora sem um pingo de medo ou fatalismo.
Sobre a mesa de centro, uma garrafa de vinho barato jazia vazia. O vinho não tinha por objetivo lhe dar coragem ou determinação. A decisão já tinha sido tomada anos atrás. Não sabia ao certo quando, era algo que se arrastara por muito tempo nos confins de sua mente, até que se tornou inevitável encarar a insustentabilidade daquela situação, a insustentabilidade de viver. A bebida estava ali apenas para que ela desfrutasse um prazer terreno, um último gosto mundano antes do fim. Um último gosto da vida. Algo que ela renunciava de sorriso aberto.
Porque ela sabia que aquilo era, na realidade, o verdadeiro começo.
Delicadamente, como um beijo frio e fatal, a ponta do furador atravessou o seu ventre. Lembrou-se da vez em que perdera a virgindade. Fora penetrada pela primeira vez naquele dia, muito tempo atrás, e agora estava sendo pela última. Conforme o sangue escorria pela sua coxa e virilha, as memórias regrediam ainda mais, com ela se lembrando do dia em que passara pela primeira menstruação. Calmamente, a sua vida passava diante de seus olhos.
Durante anos, Cleópatra se esforçara para ser nada menos que perfeita. Tentara se matar pela primeira vez aos dezesseis anos. As psicólogas responsáveis pelo acompanhamento se assustaram com a fria lógica que ela usara para explicar porque o corpo humano era imperfeito demais e ela precisa escapar de si mesma. Sua mãe a encontrara na banheira, inconsciente, os pulsos cortados. Escrito na parede, estava a frase “A pele é uma prisão”, gravada com o seu próprio sangue. A mãe nunca achara a carta de despedida que ela deixara naquele dia, e que Cleópatra guardara consigo todos esses anos. Mais cedo havia deixado na secretaria eletrônica uma versão mais madura daquela mesma despedida. A original havia sido queimada mais cedo, antes de sair de casa pela última vez, para comprar o vinho.
Horas mais tarde, quando foi encontrada, a mensagem deixada por ela foi ouvida repetidas vezes.
Vocês vivem suas vidas medíocres, dia após dia, buscando um sentido uns nos outros. As suas condutas sociais, as suas regras, os seus costumes. Vocês são tolos, tolos feitos para se verem sábios.
Não quero ser vista como uma simples suicida. Um suicida é alguém que desiste de viver, que abandona a vida. Um suicida dá importância à vida, que por um motivo ou outro ele está deixando. Eu sou alguém que renuncia às limitações do meu próprio corpo, às limitações da minha própria condição humana. A partir do meu ato, não sou mais uma parente distante de primatas. Não quero ver através de olhos que estão sujeitos ao erro; nem quero ouvir por ouvidos que podem ser facilmente enganados.
Tolos falam que a pele é o que nos faz sentir o mundo através do tato. A pele, para mim, é como aquela pequena janela quadrada que vemos nas celas das prisões. Os presidiários veem nesgas da luz do sol, sem contato usufruir dela. A pele nos permite sentir apenas uma leve nuance do mundo. Eu renuncio à minha pele. Eu renuncio ao meu coração, à minha carne, aos meus olhos, pulmões, boca, cabelos, ossos, mãos, pés. Eu renuncio à vida. Eu renuncio, em nome da infinitude. Quando o sangue terminar de jorrar e meu corpo estiver vazio, como a casca inútil que de fato ele é, eu viverei o infinito, sentirei o universo, e não a versão pobre, resumida e imperfeita que até hoje é o que eu conheço. Eu serei livre.
A vida começa agora.

terça-feira, 5 de março de 2013

Canção do universo


Estendi a minha mão e a uni com a sua. Observei cada detalhe, cada músculo do seu punho, cada veia canalizando o suave pulsar do sangue, cada um dos seus dedos entrelaçados aos meus. A escuridão era a nossa testemunha, nossa coberta, nossa confidente e nossa observadora, guardando os relatos sobre nós nas suas entranhas.
A grama sobre qual nos deitávamos parecia estranhamente com um leito matrimonial, o único que até então nós havíamos conhecido. O vento frio e cortante era aparado pelas árvores, que se curvavam, como em reverência a nós. A lua lançava uma tímida iluminação sobre os nossos rostos, desenhando o contorno da sua face, as suas linhas de expressão, os seus olhos, os seus lábios. As pontas dos meus dedos percorriam sua pele, suas veias, seus cabelos fartos, seus lábios carnudos, seu nariz perfeito. Aos poucos, eu senti que meu toque se aprofundava mais e mais, que eu tocava uma parte de você muito abaixo da superfície, tão longe de ser alcançada quanto às nuvens do céu estão longe do chão. E eu sentia você me tocando da mesma maneira.
E de repente, não nos sentíamos apenas através do toque da pele.
O mundo girava, o céu hora acima, hora abaixo. Não havia mais pele entre nós. As árvores, de repente, pareciam dançar ao ritmo de uma música inaudível, enquanto o vento suspirava canções sobre o Amor, desse jeito mesmo, com “A” maiúsculo. E de repente, a lua brilhava em matizes que nós nunca havíamos visto antes, dotando nossos olhos de uma capacidade de visão inédita, enquanto ouvíamos as estrelas falarem todas ao mesmo tempo. Não estávamos nem acordados nem adormecidos, mas em um estágio superior. Assistindo a tudo isso, a escuridão engolia aquele momento, preservando tudo aquilo para sempre.
Não havia mais eu e não havia você, não havia mais distinção de corpos, mentes e almas. Os nossos corações batiam unidos enquanto nos tornávamos um só. Nunca fomos tão humanos quanto naquele momento, sendo um só ser, uma só carne, nossas peles costuradas e nossos corações idem, enquanto sentíamos o mundo como nunca antes havíamos sentido. Era pra viver aquele momento que havíamos nascido, e pra viver aquele momento que a humanidade fora posta no mundo. Cada mistério da Criação parecia estranhamente simples e desimportante, como se as repostas não importassem. O que importava era que nós estávamos sentindo o universo fluir por entre nós. Não há palavra para o que nós nos tornamos naquele momento.
Eu me tornei você, e você se transformou em mim. Nós, a lua, a grama, o vento, as árvores, as estrelas, todos engolidos pela escuridão, que também fazia parte de nós. Unos. Uno. No singular. Todos cantando em uníssono a canção do universo, aquela sobre o Amor, assim mesmo, com “A” maiúsculo.

domingo, 3 de março de 2013

Lobo Mau e Clarice

As mãos de Lobo Mau (nas horas vagas conhecida como Clarice) percorriam o formato da sua cabeça, amassando o penteado, enquanto ela se esforçava para estimar o tamanho aproximado do próprio crânio. Depois de um tempo, foi forçada a desistir. Não porque estivesse longe de uma resposta ou algo do gênero, mas sim porque estava em um local público e estava começando a atrair olhares. As mãos se moviam como em uma dança excêntrica através do couro cabeludo, como se estivesse afastando insetos invisíveis ou lutando contra uma dor de cabeça. Mordeu os lábios, jogou uma gorjeta sobre a mesa da lanchonete e foi embora.
Suspirou. Da lanchonete cruzou o gramado para o parque, pulando alegremente sobre a placa de “não pise na grama”. Levava um livro de arte debaixo do braço direito e um de física debaixo do esquerdo, enquanto nas costas levava uma mochila contendo um exemplar de anatomia e um romance naturalista.
Pessoas. Pessoas por todos os lados. Agindo como um cardume. Já havia se resignado muito tempo atrás com o fato de que fazia parte de um rebanho, mesmo que como uma ovelha desgarrada. Quando começara a escrever para uma publicação mensal de contos na universidade, escolhera o pseudônimo “Lobo Mau”, pensando em como seria a experiência de ser o predador natural daquele rebanho. “Clarice, pensa em uma coisa melhor!” disseram os poucos amigos, embora ela não tenha prestado muita atenção. Tinha livros para ler, contos para escrever, cineastas para idolatrar e poetas para se espelhar. Ouvir críticas tomava um tempo que ela não tinha, e elas eram sempre catalogadas como inúteis em sua cabeça, como a maioria das coisas vindas das pessoas.
Clarice era do tipo de pessoa que não poderia nunca ter amigos, não verdadeiros, ao menos, sendo alguém de natureza solitária. Havia chegado a essa conclusão muito tempo atrás. Era impossível que alguém adentrasse e compreendesse o mundo por trás do seu crânio. Ninguém entenderia o motivo de, no meio do parque, calmamente sentada na grama em que não deveria sequer pisar, ela ter recomeçado a tentar encontrar uma medida para a própria cabeça. E ninguém entenderia o motivo da sua frustração.
“Cabe coisa demais aqui”, suspirou ela, percorrendo a linha da cabeça com o dedo “e é simplesmente pequeno demais”. O livro de física que ela trazia era muito claro quando as leis que regiam o universo, e ela não aceitava que o conteúdo das mentes humanas pudesse ocupar o espaço de forma diferente do que os outros corpos. Memórias de infância, sonhos, fobias, taras, era muita coisa para uma cabeça tão pequena. Os pensamentos deveriam ser microscópicos, mas se recusava a acreditar que algo tão vital quanto a sua identidade fosse de tamanho irrelevante.
Decidiu começar a trabalhar num novo conto, havia muita coisa para se dar vazão naquele momento, precisava se expressar. Os lábios chegaram a tremer nervosos, parecia muito com um asmático procurando por ar.
Lobo Mau não escrevia em um caderno ou muito menos no computador. Aliás, até escrevia, mas só para a revisão final e para a transcrição. Gostava mesmo de ouvir sua voz enquanto escrevia, aquilo dava emoção, sentia cada linha do texto se retorcer na sua garganta e sair rasgando pela sua boca. Com a cabeça delicadamente aninhada na grama, ela puxou o gravador que trazia na bolsa para perto dos lábios carnudos e começou:
“Caro leitor: quanto pesa um pensamento? Qual o tamanho de uma memória? Quantos metros mede uma fobia?”.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Fugitivos


É engraçado como as memórias não se localizam em um espaço de tempo específico. Elas estão suspensas em um anacronismo eterno. Você me falou disso uma vez, disse que tinha lido em algum lugar. Eu me diverti por semanas imaginando como cada memória de cada ser humano vagueia por um local a parte do tempo. Nós apelidamos esse lugar imaginário de “Reino das Lembranças”. Nossas memórias devem estar por lá, também. Provavelmente as minhas encontraram as suas e agora elas estão perfeitamente encaixadas, formando um quadro da nossa história, as linhas entrelaçadas, até o momento em que elas divergem e seguem contando narrativas separadas.
Você queria ser atriz, eu queria ser alguma coisa. Qualquer coisa. Qualquer coisa diferente do que eu era. E eu nem sabia o que, exatamente, só não gostava nem um pouco do que eu via quando olhava para o espelho, e mudar era urgente. Tampouco eu sabia o que nós dois éramos quando estávamos juntos. Permaneci na incógnita por uns bons anos. Muito tempo depois – embora ainda estivéssemos juntos – eu notei que nós éramos, na verdade, fugitivos. Todos são, para ser justo, eu te disse uma vez, e você concordou. Sua rota de fuga era a carreira no teatro, e a minha, bem, era você. Meu primeiro conto foi sobre isso, sobre como um casal absolutamente normal era na verdade uma dupla que vivia fugindo, e desde então, nunca parei.
Um casal absolutamente normal era na verdade uma dupla que vivia fugindo. Era uma estória sobre nós, no fim das contas. Estávamos na cama quando eu li para você aquele relato, intitulado de “Fugitivos”. Normalmente era você que lia enquanto estávamos deitados, geralmente, o texto que estivesse interpretando no teatro. Mas naquele dia, eu li. E não parei mais. Todos os dias te lia algo novo. Você ficava encantada. No começo, aqueles momentos de leitura nos enchiam da mais pura alegria. Nada podia se comparar ao sexo-pós-leitura-matinal, ou então ao banho-conjunto-pós-sexo-pós-leitura-matinal. Gostávamos de dizer que aquilo era a nossa própria narrativa sendo escrita. E não era mentira.
Depois, eu vi que aquilo era, na verdade, o princípio do fim. Estávamos fadados a fugir de tudo que não estivesse envolto pelas nossas próprias peles. Com o passar do tempo, não éramos mais a rota de fuga um do outro. Sua vida de atriz medíocre estava para trás, e agora você alcançava o estrelato, do mesmo jeito que eu despira a indumentária de universitário fracassado e começava a galgar os degraus da vida de escritor. A nossa fuga em direção ao sucesso se transformou em rotina, e tivemos de fugir dela. Mesmo que por estradas bipartidas.
Em algum recanto do Reino das Lembranças, nossos caminhos se separam de forma brusca. Sem ressentimentos ou pensamentos negativos. Cruzam-se novamente, em alguns momentos ligeiros. Mais cedo ou mais tarde, nossas linhas narrativas não se tocarão nunca mais, fugindo para sempre uma da outra, enveredando por outros caminhos. Mas é isso que nós somos, e não trocaríamos por nada no mundo. Fugitivos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Uma luz que nunca se apaga



   Verdade seja dita, o seu maior vício era a maldita heroína. O meu maior vício, bem... Era você.
“Take me out tonight, because I want to see people and I want to see lights...”.
   Sabe como eu costumo me lembrar da gente? Sentados no sofá nos fundos da sua casa, ouvindo The Smiths. Parece bobo, e na verdade, é bobo sim. Ficávamos horas lá, sentados no sofá, filosofando, nos drogando, bebendo, transando. Acho que passamos praticamente todas as tardes do final de 1986 fazendo as mesmíssimas coisas. Aquele sofá era praticamente meu segundo lar. Nunca fui muito de usar drogas, de beber excessivamente, de fazer inconsequências, mas naquelas férias de 1986 eu fiz tudo isso. E sinceramente, foram os melhores dias da minha vida.
“Driving in your car, oh please, don't drop me home, because it’s not my home...”.
   Não sei o motivo por trás de estar escrevendo. Sei que provavelmente você não vai ler. Acho que estou escrevendo por causa da injustiça que se acometeu sobre nós dois. Agora eu estou velha, cansada. Bom, velha não, mas não sou mais aquela menina de dezoito anos de idade sentada no sofá dos fundos da sua casa. Naquela época te via como a pessoa mais singular e fascinante com quem cruzara na vida, e bem, hoje eu tenho certeza que você era isso mesmo. E muitas outras coisas mais. Inclusive também era um drogado problemático, um alcoólatra com passagens pela polícia, e anos depois, um pai e marido ausente. E isso é o mais injusto. Eu, que naquela época era a estudante de letras medíocre, hoje vivo confortavelmente, com filhos amorosos, cercada de luxos, viagens ao exterior e uma família que me ama. E você, o pensador a frente do seu tempo, o pintor genial, encontrado morto no chão do banheiro, vítima da porra de uma overdose. A vida é injusta.
“It's their home and I'm welcome no more”.
   Todos diziam que você não era bom pra mim. Besteira maior não há. Você só não era bom pra si mesmo. Eu não era boa pra você. Eu não estive com você até o fim. Eu segui em frente achando que seria o certo a se fazer, e você ficou lá, em 1986. Não suportava mais as drogas, a fragilidade da situação. Eu tive que te deixar. Era tudo frágil demais. Uma hora iria ruir. Fugi antes que tudo se despedaçasse. Mas eu não sabia, naquela época, que a beleza de tudo estava na fragilidade.
“And if a double-decker bus crashes into us, to die by your side, such a heavenly way to die”.
   Eu fui ao seu velório. Sua família se lembrava de mim, afinal. Eles não me odeiam por ter te deixado, não como eu me odeio. Acho que você gostaria de saber que a sua ex-mulher também estava lá, e a sua filha também. Não é ótimo? Elas te perdoaram. Achei que você adoraria saber disso.
“And if a ten-ton truck kills the both of us, to die by your side, well, the pleasure and the privilege is mine”.
   Algum dias depois do seu velório, eu recebi uma correspondência do seu irmão mais novo. Em uma carta simples, ele me explicou que meu nome estava no seu testamento. Não estou segurando as lágrimas agora, da mesma maneira que não segurei naquele dia. Chorei mais naquele dia do que em qualquer outro dia na minha vida. Mais lágrimas do que no meu divórcio. Você tem a mínima ideia de como me deixar o nosso disco preferido foi importante pra mim? The Queen Is Dead, do The Smiths, o disco que nós ouvimos à exaustão em 1986. Nossa música preferida está naquele CD, também, lembra? There Is A Light That Never Goes Out. Há uma luz que nunca se apaga.
   Estou escrevendo porque nós somos uma luz que nunca se apaga.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Uma flor entre dois abismos


Helena leu no jornal matinal a notícia sobre a morte de Victor. O obituário modesto a encheu de uma profunda decepção. Uma nostalgia. E finalmente, uma dor esmagadora. Vamos morrer juntos, e quando isso acontecer, eles vão erguer um monumento em nossa homenagem. A primeira vez que ele lhe dissera isso fora no parque. Vamos morrer juntos. Naquele dia os dois estavam deitados muito próximos, vendo as crianças brincarem, a grama delicadamente formando uma coroa em torno das suas cabeças, abraçando os fios longos e loiros do cabelo dela e o emaranhado castanho dele. Eles vão erguer um monumento em nossa homenagem. Naquele dia estavam tão próximos que ele só precisava sussurrar para que ela ouvisse. E naquele dia ele sussurrou muito. Não parava de falar. Não parava de falar nunca. Falava muitas coisas sobre a vida, sobre a política, sobre a sua família, sobre ele, sobre ela, sobre eles. Essa foi a primeira coisa que Helena amou nele.
Victor quase nunca se enganava. Não era daquele tipo que abria a boca apenas quando tinha certeza do que dizia – ao contrário, ele falava sem pensar constantemente – mas simplesmente não errava nunca. E gostava de se gabar disso. Mas no fim das contas, errara quando dissera que seria erguido um monumento glorioso com o nome deles. O obituário não tinha nada de espetacular, chegava a ser até mesmo impessoal. Isso a enchia de dor e tristeza, pois sim, Victor merecia um monumento tão grande quanto ele fora em vida – apesar do mundo não reconhecer o talento do poeta frustrado.
Lembrava com ternura do verão que passaram juntos, das manhãs preguiçosas passadas na cama, enquanto ele lia seus mais recentes versos. Recordava-se perfeitamente do minúsculo apartamento que dividiram, com sua mobília modesta e discreta. A vida nunca fora tão simples e tão bela. Enquanto ele escrevia, ela explorava sua habilidade de pintora - ainda tinha telas daquela época -, muitas vezes inspirada pelas coisas que ele lhe dizia, ditas muitas vezes sem razão aparente. Coisas belíssimas, que tanto tempo depois ainda enchiam os olhos dela de lágrimas. Somos uma flor entre dois abismos dissera-lhe ele uma vez, enquanto se abraçavam na cama, trocando carícias de leve. Naquele dia não havia verso para ela ouvir, pois tinham passado o dia anterior inteiro se amando e ele não escrevera nada de novo. Somos uma pausa suave nesse mundo frenético. Somos um coração entre dois pulmões.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto segurava o obituário.
Fora no verão que eles se amaram, e também fora no verão que ele morrera. Helena caminhava pelo cemitério, e a presença dele era tão palpável que podia sentir o toque suave da mão dele na sua. Poucas pessoas se reuniram para o último adeus do poeta ignorado pelo mundo. Ela não conhecia ninguém daquele grupo pequeno, a não ser a irmã dele. O nome dela não será citado aqui, pois essa história não a pertence, mas era uma moça bonita, com os mesmos olhos verdes do irmão, que pareciam olhar na sua alma. Fora para ela que Helena ligara no dia anterior, para saber os detalhes sobre a cerimônia fúnebre e render a sua última homenagem ao homem que amara. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça, e então se abraçaram discretamente. Nenhuma das duas chorou. Victor era cercado por mulheres fortes.
As lágrimas vieram quando Helena viu a lápide, que ela mesma mandara fazer. A irmã e única parenta viva do seu amado consentira. Escolhera cada uma das palavras que estavam gravadas na pedra. Sentiu como se elas também estivessem gravadas em seu coração. No fim, ele teve o seu monumento.
Aqui jaz Victor Plaza, uma flor entre dois abismos.
***
A expressão "uma flor entre dois abismos" é tirada do livro "A Garota Das Laranjas", de Jostein Gaarder.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Confronto

Espero-te amanhã para o próximo confronto. Aqui, mesmo lugar. Talvez não exatamente o mesmo lugar em que você me deixou, mas aqui. Nas redondezas. Entre o calabouço e o céu. Perto, muito perto. No apartamento no fim do corredor. Você vai chegar cansada do trabalho e vai abrir a porta com a chave que eu te dei já faz algum tempo. Eu vou apenas rir, falando sobre meu dia que mais soa como a maior de todas as odes ao sedentarismo. Vamos conversar sobre o seu chefe insuportável e sobre os novos discos que eu comprei. Vou fingir ouvir e prestar atenção. Pediremos comida. Você vai fingir não ligar para eu escolher, como sempre. Vou fingir que não noto e que não pedi algo que você não gosta de propósito. Vamos ouvir um Radiohead e pensar sobre a fragilidade das relações humanas, sobre a fragilidade dos casamentos, sobre a fragilidade de tudo. Fingir que ligamos para esse papo pseudo-intelectual de botequim. Que ligamos um para o outro. Então, fazer um cafuné, porque uma noite de amor não pode ser tão naturalista assim. Vou te beijar com força. Minha mente vai se dilatar esperando pela hora do confronto, e eu não vou notar na hora em que ele terminar. Mas eu vou perder, como sempre. Eu sempre perco, esse é um jogo onde todos perdem. E que todos jogam, apesar dos resultados previsíveis.
E então vamos ficar lá, deitados na cama, pensando nas nossas derrotas mútuas. Então eu vou acender um cigarro apenas pelo prazer de te ver se incomodar com a fumaça, e você vai fingir que não liga (quase posso ver as engrenagens por dentro da sua cabeça. É quase errado que eu te conheça tão bem). E então vou falar sobre como aquele político que você odeia está fazendo um trabalho genial, e também falar mal daquela banda que você adora, além de criticar o último filme do seu diretor preferido. E você fará o mesmo comigo. E vamos continuar fingindo que não ligamos. Do mesmo jeito que eu finjo não ligar quando você diz que não pode morar comigo. Do mesmo jeito que eu  no fundo eu ligo para os tabus sobre os "eu te amo" e para o esforço que fazemos para tornar os cafunés impessoais. 
E então, você vai embora. Você vai embora e finalmente a ficha cai, e os anos pesam, e eu entendo quando dizem que “a gravidade e o tempo sempre vencem”. E estou sendo vencido, sim. Porque afinal de contas, é um jogo onde todos perdem.
Mas você volta. Sorrio, embora tenha medo do sorriso e do seu significado.
E é como sempre. A espera de todos os dias. Te espero. Mesma hora, mesmo lugar. Mesmo confronto.